Capítulo II Semão de Santo António

Capítulo I - Análise e resumo
     
A introdução ou exordio, deste sermão, é muito importante, na medida em que é o primeiro passo para captar a atenção dos ouvintes (deletare).
    
O barroco manifesta-se nesta obra através de fenómenos de grande rigor interno e externo: o cultismo e o conceptismo.
    
No cultismo, através da tendência para abusar de metáforas, anáforas e antíteses. 

Utilizava-se um jogo de palavras recorrendo a trocadilhos e repetições.
    
O conceptismo era um jogo de conceitos, alegorias e ideias rebuscadas.

Partindo de um pequeno excerto bíblico de S.Mateus (“Vos estis sal terrae”) em que (vos = pregadores; o sal era a mensagem evangélica; terrae = ouvintes), os ouvintes não poderiam pôr em causa o que Vieira defendia. Usando a palavra divina retirada dos 

Evangelhos, não o poderiam contestar.
    
Com vista à captação do auditório e através de uma engenhosa rede de jogos de palavras, Vieira recorre a vários artifícios: “Qual será ou qual pode ser a causa desta corrupção?”; “Porque é que o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina?” Ou seja, porque é que a mensagem evangélica não chega aos ouvintes? Porquê? Tudo isto são trocadilhos e repetições do cultismo do Barroco.

    O capítulo I começa com um conceito predicável (Vós sois o sal da terra, proferido por Cristo Senhor nosso aos seus pregadores), seguindo-se a descrição da corrupção que se faz viver na Terra. É nos explicada a função do sal (impedir a corrupção) e é feita uma referência clara aos padres e pregadores (aqueles que têm o ofício do sal). É nos então colocada a questão “qual a causa da corrupção?”.
    

Segue-se pois um trocadilho de questões, tais como: “Será a terra que não se deixa salgar (os ouvintes não querem ouvir), ou será que os pregadores não pregam a verdadeira doutrina? Ou porque os ouvintes a ouvem, mas não praticam o que lhes é ensinado, ou porque o pregador prega a si e não a Cristo. Ou ainda, que os ouvintes ouvem, mas não servem a Cristo, antes sim aos seus apetites.” A reflexão “Ainda mal” é um sarcasmo típico do estado de espirito do orador.
    

É então explicado que, se o sal não salga a terra, é porque o pregador não prega a verdadeira doutrina e por isso deve ser lançado fora como um inútil e ser pisado por todos. 

E à terra que não se deixa salgar, deve-se seguir o exemplo de Santo António quando pregou contra os hereges em Itália: mudar de auditório. E é isto que faz o padre António, à semelhança de Santo António, mudando de auditório, escolhendo como ouvintes os peixes ao invés dos homens, que se recusam a ouvi-lo. Padre António Vieira estabelece a comparação com Santo António que era ignorado e perseguido pela população, então decidiu mudar o púlpito e o auditório, da terra passou para o mar e dos homens passou para os peixes, começando assim a pregar aos peixes.
    

O pregador invoca no final Nossa Senhora porque era habitual fazê-lo nesta época, ainda mais porque Maria quer dizer Senhora do Mar.

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